domingo, 7 de março de 2010

Judaísmo Humanista - EMUNA BA ADAM

Judaísmo Humanista - EMUNA BA ADAM
Jayme Fucs Bar – março 2010


Ao longo dos últimos anos, o judaísmo secular humanista vem se tornando um movimento, que procura ser uma alternativa prática para milhares de pessoas que se definem como judeus.
Em minha opinião, judeus e judias, são todos aqueles se definem como parte integral da historia, cultura e tradição judaica, independente dos dogmas exigidos pelas correntes religiosas, que definem que para ser judeu é preciso ser filho de mãe judia, Ser judeu esta totalmente relacionado com uma identidade cultural judaica, e uma relação profunda com a historia e tradição milenar do povo judeu.


Eu estou ciente que esse tema está impregnado de um grande dogma dentro dos judeus e das comunidades judaicas, mas é preciso falar, debater sobre ele, e não ter medo de enfrentar e romper com esse dogma, pois de fato existe fora da vida comunitária, milhares de judeus que foram criados, educados e se identificam com parte integral de nosso povo, porém, estão marginalizados e excluídos. Essa situação é cada vez mais grave dentro do mundo judaico atual, onde o judaísmo organizado se torna cada vez mais uma opção religiosa, onde existe milhares de famílias que institucionalmente “perdem” sua condição judaica, surgindo uma necessidade vital de criar e se congregar em comunidades seculares humanistas, que possam proporcionar a esses judeus uma nova opção de continuidade judaica organizada.
Eu como um judeu secular e humanista tenho uma grande EMUNA (Crença) nos seres humanos, onde acredito que A VIDA HUMANA É SAGRADA, onde seres humanos são o centro das preocupações e não Deus, Talvez muitos pensem que este seja um discurso ateísta. Na verdade não sou ateísta nem tão pouco teísta, me considero um agnóstico, isso é, não desacredito na existência de Deus, pois sei que não tenho como provar; como também não tenho como provar a sua inexistência. Sei que estou dizendo algo que parece confuso, pois não tenho a mínima possibilidade de comprovar ou (dês)comprovar esse argumento: o direito de crer ou não crer é uma manifestação legítima e deve ser respeitado, assim como todos os tipos de crenças (emunot), de todas as correntes judaicas e não judaicas, devem ter o seu lugar e devem ser respeitadas e o judaísmo humanista também.
Acredito que jamais devemos esperar, culpar, ou exigir, que Deus venha solucionar os nossos problemas humanos, como a fome, a miséria, a disparidade social, as guerras, as diversas formas de violência e a destruição ecológica. Esperar por Deus para solucionar nossos problemas humanos, de certa forma, é uma blasfêmia, que vem sendo adotada por varias gerações, com certeza, uma grande insensatez humana , pela qual se vem pagando um preço muito caro em vidas humanas por assim acreditar . Vamos tirar de Deus a responsabilidade de ser o nosso Salvador, e vamos assumir nos mesmos as responsabilidades humanas um com o outro e deixar Deus em Paz.

Estou totalmente vinculado a idéia que a Torá, o Único e o judaísmo não são e não podem ser um monopólio dos religiosos. A Torá nos deu a razão e a consciência para podermos agir e nos relacionar uns com os outros de forma ética, sabendo respeitar com dignidade a cada um, independente de sua nacionalidade, religião, raça ou crença. Para mim o Judaísmo tem como base comum o conceito do ÚNICO, da unidade que rege todo esse universo, e nós seres humanos somos parte inseparáveis dessa unidade, por isso, somos iguais dentro desse contexto do ÚNICO, onde tudo que é vivo e natural é sagrado e somos um conjunto de partículas que constitui a cadeia de vida do ÚNICO.
Não somos nós judeus um povo privilegiado ou prodígio, somos sim, um povo de uma cultura milenar, com uma grande experiência histórica que nos permite ajudar e contribuir muito para o bem-estar da Humanidade.
Acredito que não devemos usar o nome do " ÚNICO" para alcançar objetivos particulares, de grupos, estados ou religiões que justificam em nome do ÚNICO a destruição do outro. Se existe o pecado, este sim é um grande pecado mortal dos nossos tempos, onde a fusão de fundamentalismo religioso, nacionalismo e militarismo vem sendo a fórmula de semear o ódio, a violência, o terrorismo e a opressão entre seres humanos, onde o fortalecimento desses grupos e estados pode nos levar a grave conseqüências de um holocausto nuclear e a nossa autodestruição.
As idéias do judaísmo secular Humanista organizado que propõem uma alternativa compatível a muitos judeus do século XXI , vêem sendo muito criticadas por grupos religiosos e tradicionalistas, e eu como judeu secular humanista, exijo o meu legitimo direito de me congregar e me definir como uma corrente judaica legitima, que tenha seus próprios rabanim,shilichm tziburiim, batei midrash, centros culturais,etc, realizando todos os serviços judaicos como Kabalat Shabat,Brit Milá, Bar –Bat Mitzvah,casamento, todos festejos judaicos, conversão, sepultamento, enfim, o ciclo da vida judaica completo.
O Movimento do Judaísmo Humanista organizado tem suas origens no Movimento Kibutziano , no Bundismo, e também na ação de Sherwin Wine, um rabino Reformista, que deixou o Movimento Reformista , pois concluiu que o judaísmo era muito mais que uma religião. Apesar das diferenças do processo histórico de cada um dessas organizações ,o Kibutz, o movimento Bundista e as comunidades do rabino Wine têm em comum a crença num judaísmo amplo, que se compartilha na sua comunidade todos os aspectos culturais, como: música, história, filosofia, educação, artes, humor, folclores , literatura, tradição e ritual judaico e muita fé no ser humano .
O Movimento Kibutziano, o Bund e o movimento do rabino Wine entenderam que os rituais e as tradições do passado seriam uma excelente fonte para criar um judaísmo do futuro, adaptado à realidade e as profundas mudanças que vêm ocorrendo no mundo judaico , onde se possa congregar milhares de judeus seculares humanistas afastados do meio judaico, a praticar e manifestar um judaísmo humanista secular aberto e sem dogmas.
Para mim o Judaísmo Secular Humanista deverá ter muito claro a questão da identidade judaica, Vivemos hoje numa sociedade globalizada onde cada um de nós tem várias identidades. Acredito que devemos fortalecer essa nossa identidade secular humanista, que está intimamente ligada à criação de espaços para educação judaica, principalmente, a informal. Educação Judaica e a juventude deverão ser as prioridades das comunidades organizadas do judaísmo Humanista, em Israel e no mundo judaico.

O Meu Judaísmo Humanista é também inseparável do compromisso com o destino do Estado Judeu, acredito que o Judaísmo Secular Humanista deverá ser uma manifestação moderna de um Sionismo renovador e progressista, que deverá cumprir, na prática, a carta magna da independência do Estado Judeu de almejar um estado dos sonhos dos profetas de Israel, um estado judeu baseado na paz e respeito mútuo entre os povos, e na justiça e solidariedade para todos os seus cidadãos.
O Judaísmo Humanista deverá ter, hoje mais do que nunca, um papel político claro e critico sob o rumos atuais do estado Judeu, Isso quer dizer não abrir mão de reivindicar pela necessidade da separação entre estado e religião, e o direito de todas as correntes judaicas à legitimidade institucional; não ter medo de lutar pelo reconhecimento mútuo ao direito legítimo do Estado Judeu e do Estado Palestino de viver um ao lado do outro com fronteiras reconhecidas e seguras.
Judaísmo Secular Humanista organizado, é um novo desafio do judaísmo pós moderno,e o crescimento ou não desse movimento na atualidade, dependerá somente de cada um de nós judeus,nas nossas possibilidades de sairmos do nosso conformismo e individualismo e assumir na prática a responsabilidade de se organizar e criar nossas próprias keilot, dando respostas diretas para nossas necessidades como judeus seculares ,e principalmente, uma opção real para um judaísmo de roupas novas que possa encarar o século XXI com fé ( EMUNÁ) no ser humano, e também uma profunda e intima ligação com o ÚNICO, pois tudo que seja vivo deve ser sagrado.
Jayme Fucs bar

sábado, 23 de maio de 2009

Educação para uma identidade humanizada

Educação para uma identidade humanizada
Jayme Fucs Bar – Jerusalém Maio 2009

"Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo".Paulo Freire

Acredito que a Educação tem como missão central, conscientizar pessoas para uma ação pedagógica; ação pedagógica de respeito à vida, respeito à natureza e à integridade humana.
O respeito à vida, à natureza e à integridade humana deverá ser o elo máximo que unifica os seres humanos neste planeta, independente de que cada um de nós estejamos caracterizados por um variado âmbito de identidades específicas:culturais, religiosas, nacionais; estruturas sociais, identidades sexuais, raças, etnias diferentes.
Devemos educar para a compreensão dessa identidade humana como forma de ajudar a promover a humanização do ser e do planeta, principalmente nestes momentos de grandes convulsões econômicas, ecológicas, religiosas, políticas e sociais, que afligem todos nos seres humanos.
Frei Beto muito bem disse “Uma rosa é uma rosa. Ninguém discorda. No entanto não há consenso de que uma pessoa é uma pessoa. Nazistas negam a judeus o direito à vida, assim como há judeus que se julgam superiores aos árabes, e árabes que assassinam cristãos que não comungam com suas crenças, e cristãos que excomungam espiritualmente judeus, muçulmanos, comunistas, homossexuais e adeptos do candomblé.”

Talvez nesse novo processo onde a cultura, a economia, as comunicações, e os pensamentos, estão se transformando numa simbiose global, e os conceitos de nações e de pátrias, estão enfrentando novos desafios, poderia a globalização ser um exemplo vivo de transformação dessas identidades específicas para a priorização de uma identidade humana.

Para que isso aconteça necessitamos inserir nesta sociedade globalizada, o conceito de Luis Razeto "sociedade global solidária" e mais justa, para que se possa criar de fato o sentido de pertinência à uma identidade humana mais homogênea, onde as dimensões étnicas, religiosas e nacionais ficariam minimizadas e muitas vezes anuladas, dentro da amplitude de uma sociedade global voltada para a humanização do ser e do planeta.
Entretanto a globalização não está conseguindo congregar um processo de formação e fortalecimento das identidades humanas como base para construir valores de solidariedade, respeito, e coexistência mútua. Ao contrário!
A globalização vem funcionando como um fator de modelação de uma nova identidade ideológica, que não tem como objetivo socializar seres humanos e integrá-los em uma sociedade solidária, justa e globalizada.
A globalização neste momento funciona maravilhosamente para criar uma identidade individualizada que atenda as necessidades do mercado, do lucro, onde ela se transforma numa poderosa ferramenta para ampliar a ganância, as guerras, a corrida atômica, o consumo e a competição entre indivíduos.Esta realidade global está cada vez mais, criando novas identidades de excluídos.

Excluídos sociais, excluídos ecológicos, excluídos do direito à educação, à saúde, à moradia e ao bem-estar social, excluídos do direito á água, ao ar, ao mar,aos rios não poluídos.
“Excluídos há e por todos os lados: pobres, desempregados,“inempregáveis”,sem-teto, mulheres, jovens, sem-terra, idosos/as, negros/as, pessoas com necessidades especiais, imigrantes, analfabetos/as, índios/as, meninos/as de rua... A soma das minorias acaba sendo a minoria maioria.”
(Pablo Gentile, Educar na esperança em tempos de desencanto, 2005 p. 31-32)
Será possível transformar o mundo, trasformar as pessoas ?

Sim! Eu pessoalmente acredito que seja possível! Mais para isso é necessário neste momento, fazer a revolução da conscientização humana. Revolução da conscientização humana é colocar o conceito de que o ser humano é o centro de todas as nossas manifestações, independente de nossas origens culturais, nacionais, religiosas, étnicas e sociais.

Devemos educar para o conceito onde devemos dizer "Sou um ser Humano antes de tudo", antes de ser judeu,brasileiro e israelense "sou um ser humano"! Minha lealdade máxima deverá ser sempre à esse conceito do homem como centro.

Estou aprendendo a me conscientizar com este conceito através de atos e diálogos simples com outros humanos, principalmente com aqueles que são de origens culturais, religiosas e nacionais " diferentes" da minha, Como um bom exemplo de aprendizado que tenho com um amigo beduíno, onde somos muitíssimo diferentes em nossas caracterizações culturais específicas, ele se define como beduíno, muçulmano, árabe, palestino e israelense.
Em nossas relações o que temos em comum e o que nos unifica é essa consciência de nossa identidade humana. Essa identidade se manifesta por coisas simples da vida, de nosso dia a dia como as festividades, as alegrias, a família e também as tristezas.

O dialogo se passa através do respeito mútuo e principalmente em saber não julgar que as suas manifestações culturais, religiosas e nacionais sejam melhores ou mais corretas do que a do outro.
Uma simples e sábia filosofia é colocar sempre o contexto humano como fator principal de nossas identidades, superando as nossas diversas identidades específicas.
Ter uma consciência da identidade humana e o que nos unifica e o que nos faz ser responsáveis uns pelos outros e não as nossas identidades específicas.
Identidades específicas criam sempre o abismo de nossas diferenças.
Pessoalmente defino essa identidade humana como definiu Freire " A identidade do ser inacabados, incompletos" e imperfeitos onde estamos numa constante busca para entender o que vem a ser nossa essência como seres humanos”.

Acredito que para transformar essa difícil realidade do planeta com suas guerras, suas violências, suas destruições ecológicas, necessitamos realizar a “Revolução da Consciência Humana”. Isso poderá acontecer somente no ato de que cada um realize uma mudança radical em sua própria forma de se relacionar com o "diferente".

Conscientizar da sua própria identidade humana ė colocar essa identidade como fator principal em nossas vidas, independente de nossas culturas, religiões ou nacionalidades.
A revolução da consciência da identidade humana poderá nos instrumentar para efetivar uma ação social e ecológica ampla para ajudar aos seres humanos a saírem do seu conformismo e acreditar que seja possível lutar para criarmos uma sociedade humana diferente,consciente do perigo de um possível holocausto social, atômico e ecológico.
Somente uma revolução da consciência da identidade humana, poderá ajudar a criar uma visão de mundo de esperança,para criar uma nova cultura humana, uma sociedade humana possível de se auto superar de uma ameaça quase eminente de auto destruição.